sábado, enero 07, 2017

O Assassinato Científico de um Revolucionário Sexu...

SARAU PARA TODOS: O Assassinato Científico de um Revolucionário Sexu...: https://www.vice.com/pt_br/article/o-assassinato-cientifico-de-um-revolucionario-sexual-como-os-eua-interromperam-a-utopia-orgasmica-de-wil...





Em julho de 1947, o Dr. Wilhelm Reich — um psicanalista brilhante, porém, problemático que já tinha sido o estudante mais promissor de Freud; que já havia enraivecido os nazistas e os stalinistas bem como as comunidades psicanalítica, médica e científica; que sobreviveu a duas guerras mundiais e fugiu para Nova York — estava morrendo em sua cela numa prisão em Lewisberg, Pensilvânia, acusado pelo governo de ser uma fraude médica engajada num “golpe sexual”.
Esse “golpe” um dia seria chamado de “revolução sexual”. Mas ainda era 1947 nos Estados Unidos — um país que não estava nem pronto para a psicanálise, uma ciência ainda nascente que a Harper's e o The New Republic categorizaram, juntamente com as teorias de Reich, como sendo não melhores do que a astrologia (a Harper's tinha decidido que Reich era o líder de um “novo culto de sexo e anarquia”).
Se o público norte-americano não estava pronto para o Dr. Freud, imagine para o Dr. Reich — um homem que pesquisava a força energética do orgasmo em si em seu instituto Orgonon, próximo de Rangely, Maine.
Reich tinha levado as teorias de Freud mais longe. Longe demais, de acordo com o FDA (a Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos). Começando com a conexão de Freud entre repressão sexual e neurose, Reich teorizou que era a inabilidade física de se render ao orgasmo o que gerava a neurose e, por fim, levava as pessoas ao fascismo e ao autoritarismo. Reich migrou da cura de Freud pela fala para algo chamado análise do caráter, uma terapia criada para ajudar seus pacientes a superarem bloqueios físicos e respiratórios que os impediam de experienciar o prazer. Finalmente, ele afirmou que o orgasmo era uma expressão do orgônio, uma força cheia de alegria da própria vida. Com aparelhos do tamanho de cabines telefônicas chamados acumuladores de orgônio, ele aproveitaria essa força para curar a neurose, doenças e até para afetar o clima e ajudar a agricultura.
Por causa dessas linhas de pesquisa, o FDA exigiu que Reich comparecesse ao tribunal para defender a si mesmo em 1954. Ele se recusou, afirmando que alegações da verdade científica deveriam ser resolvidas pela experiência, não num tribunal. O tribunal respondeu emitindo uma liminar contra a venda e transporte de seus aparelhos através das fronteiras dos estados e passou a queimar sistematicamente seus livros e periódicos. Não apenas o trabalho escrito de Reich, mas qualquer material escrito que contivessea palavra “orgônio” deveria ser destruído (paranoico e encurralado, Reich recusou a ajuda oferecida pela ACLU, a União Americana pelas Liberdades Civis, acreditando que a organização estava cheia de comunistas subversivos). Agentes da FDA também destruíram seus aparelhos e laboratório com machados — mas isso não foi tudo. A FDA levaria a perseguição da psicanálise austríaca muito mais longe.
O que havia nesse homem e em suas teorias que evocou o ódio de quase toda facção política e científica de sua época? O que havia em sua “revolução sexual” que valeu um arquivo do FBI de 789 páginas sobre Wilhelm Reich? O que provocou uma campanha sistemática de ataques que dificilmente faria pensar na América sã e racional que tinha acabado de vencer uma guerra contra os nazistas queimadores de livros — ataques que fariam lembrar a Inquisição, a morte de Giordano Bruno na fogueira ou o final de Frankenstein, com aldeões enraivecidos segurando tochas e forcados queimando o castelo do cientista louco?



O Combate Sexual da Juventude
Reich nasceu em 24 de março de 1897, numa fazenda na Galícia, Áustria-Hungria, no que hoje é a Ucrânia. Ele abraçou sua sexualidade bem cedo, tentando, sem sucesso, fazer sexo com a babá de seu irmão quando tinha quatro anos e meio, e finalmente conseguindo com a cozinheira da família aos 11. Aos 12, Reich descobriu sua mãe fazendo sexo com um de seus tutores. Quando ele contou ao pai, o homem espancou repetidamente a mãe de Reich até que ela cometesse suicídio. Reich se culpou pelo caso.
Dos 15 aos 17, ele fez diversas visitas a bordéis e registraria fantasias sexualizadas com sua mãe em seu diário aos 22 anos (naquele mesmo ano, ele conheceu Sigmund Freud, cujas teorias do complexo de Édipo podem ter influenciado essa confissão). Lore Reich Rubin, a segunda filha de Reich, diria mais tarde ao jornalista Christopher Turner que acreditava que Reich tinha sido vítima de abuso sexual na infância.
Enviado para o Exército durante a Primeira Guerra Mundial, Reich viu “a desumanidade do homem para com o homem” em primeira mão na frente italiana. Depois disso, ele estudou medicina na Universidade de Viena, onde ficou insatisfeito com o que considerava uma abordagem “mecanicista” da vida na dissecação fria de cadáveres por seus colegas estudantes. Assim, ele começou uma busca pela energia criativa que sentia como sendo subjacente à vida. Em1919, ele conheceu Sigmund Freud. Bem recebido no movimento psicanalítico em expansão, Reich recebeu a permissão para começar a atender pacientes aos 22 anos — ele logo ficaria marcado como o pupilo estrela de Freud, alguém talvez destinado à liderança.
Freud tinha identificado a raiz da neurose na sexualidade reprimida e a força motora da vida como sendo a libido — afirmando que “nenhuma neurose é possível com um vita sexualisnormal”. Seus dois grandes estudantes, Jung e Reich, deveriam levar sua teoria mais longe. Entretanto, enquanto Jung abordaria o caminho da mitologia, simbolismo e do oculto, Reich se aventuraria numa direção completamente diferente: o corpo.
Para além do reino da repressão psíquica, Reich postulou que o trauma também era reprimido fisicamente. Uma criança que sofreu abuso, por exemplo, e que não possuía o desenvolvimento emocional para processar tal evento, iria “armazenar” o trauma como tensão muscular, o que poderia causar dores crônicas mais tarde na vida e formar o físico e o caráter geral do indivíduo, sua abordagem para a existência. Reich acreditava que o caráter fascista era criado por um trauma inicial e que uma atitude repressiva ou abusiva para com a sexualidade se manifestava como uma “rigidez” física e emocional na vida adulta — Reich se preocupava com nada menos do que a erradicação do fascismo e do autoritarismo.


A abordagem de Reich da terapia, portanto, iria além da simples cura pela fala: ele também usaria massagens profundas e frequentemente dolorosas nas áreas de tensão muscular do paciente para liberar o trauma enterrado e trabalhar com os pacientes para aprofundar sua respiração e expressar suas emoções ignoradas, até mesmo sua raiva reprimida. Foi essa abordagem, combinada à atitude pró-sexualidade de Reich, que escandalizou o público e colocou sua carreira num foguete para lugar nenhum. (Embora bastante conservador em algumas áreas — ele se opunha à pornografia e à homossexualidade, por exemplo — Reich teve casos com várias pacientes no começo de sua carreira, ao final das terapias. Isso não era incomum nos primórdios da psicanálise; mesmo Freud discutiu a inevitabilidade dos casos amorosos. Em sua busca por liberar a energia da vida, Reich mais tarde receberia pacientes parcialmente ou totalmente despidos, quebrando totalmente a neutralidade analítica).
Reich logo descobriu que trabalhar os bloqueios tanto na psique quanto na musculatura poderia criar uma imensa liberação emocional em seus pacientes, desencadeando inclusive sentimentos de exaltação física e êxtase (Reich chamou essas sensações físicas de “correntes orgonóticas”). Conforme sua prática continuou, ele veio a teorizar que, abaixo das camadas de repressão muscular, havia o que ele chamava de “potência orgásmica” e que era a repressão muscular que blindava seus pacientes da total liberação orgásmica — uma experiência completa de vida.
 Um diagrama do funcionamento reativo e econômico-sexual do livro A Função do Orgasmo.
Em 1948, ele codificaria sua teoria em sua maior obra, A Função do Orgasmo, na qual afirmava que o orgasmo existia não somente como função reprodutiva, mas como uma maneira de o corpo regular a tensão e atingir a liberação emocional. A total liberação orgásmica — na qual o indivíduo não procura reprimir a função de forma física e psicológica — era vista por Reich como uma chave para a saúde mental. Como ele escreveu no livro: “Doenças psíquicas são o resultado de distúrbios na capacidade natural de amar” (Reich se casaria e se divorciaria três vezes — com a psiquiatra e ex-paciente Annie Pink, de 1924 a 1934, com quem ele teve duas filhas; com a dançarina Elsa Lindenberg, com quem ele teve um casamento aberto de 1933 até 1939, e com Ilse Ollendorff, com quem teve um filho, Peter, de 1946 a 1951. Paradoxalmente, Reich é lembrado como sendo cruel, infiel e ciumento em seus relacionamentos).
Freud era ambivalente sobre as ideias de seu discípulo. Em 1926, ele escreveu: “Não me oponho de maneira alguma à sua tentativa de resolver o problema da neurastenia explicando isso com base na ausência de primazia sexual”. No entanto, ele retirou seu apoio às teorias mais extremas de Reich dentro da comunidade psicanalítica mais ampla, talvez pensando na preservação de suas próprias vitórias culturais duramente conquistadas no campo da sexualidade. Sem o apoio de Freud, a comunidade psicanalítica logo lavou as mãos sobre o jovem analista.
Então, as coisas deram uma guinada para pior para Reich. Lutando com as reações contrárias a ele durante 1926, ele pediu para ser analisado por Freud. Seu mentor e figura paterna recusou seu pedido de ajuda. Reich ficou profundamente magoado. Logo em seguida, seu irmão morreu de tuberculose; Reich também contraiu a doença e passou um ano num sanatório em Davos, Suíça. Chocado por essa sequência de eventos, ele se tornou um radical e logo se juntou ao Partido Comunista. Testemunhando pessoalmente quando a polícia indiscriminadamente matou 84 trabalhadores e feriu 600 na Revolta de Julho de 1927, em Viena, Reich se convenceu de que havia algo muito errado com o mundo. A polícia não havia sido somente brutal, segundo ele observou, mas robótica, como se estivesse num transe — blindados.


Trabalhando nas ruas, Reich fez a conexão entre a repressão sexual com a repressão econômica que via ao redor. Ele abriu diversas clínicas em Viena, oferecendo análise, assim como educação sexual e contraceptivos para jovens da classe trabalhadora (na época, os liberais defendiam o uso de contraceptivos somente para pessoas casadas).

Reich com sua primeira esposa, Annie, que o conheceu como paciente aos 18 anos.

ELE ARGUMENTOU FORTEMENTE CONTRA A MONOGAMIA, DEFENDENDO “RELACIONAMENTOS AMOROSOS DURADOUROS” QUE NÃO ESTAVAM CODIFICADOS PELA LEI, MAS UNIDOS PELO AMOR.

Reich se mudou para Berlim em 1930, bem em tempo de testemunhar a ascensão dos nazistas – o ápice da blindagem de caráter. No entanto, apesar de continuar a desenvolver suas teorias e a escrever os comunistas também mostravam pouco interesse por seu material. Seu contrato com os Editores Psicanalíticos Internacionais foi cancelado depois que ele começou a defender a educação sexual e os contraceptivos para adolescentes em vez da abstinência – ele chegou a sugerir que a expressão sexual desmistificada para crianças podia ser crucial para criar adultos saudáveis e que suas perguntas deveriam ser respondidas de maneira franca. Em 1932, num livro chamado O Combate Sexual da Juventude, o Dr. Reich protestou contra as mensagens mistas sob as quais os adolescentes lutavam para entender sua sexualidade.
 “Os jovens são contaminados por um lado por moralistas e defensores da abstinência e, por outro lado, pela literatura pornográfica”, escreveu. “Ambas as influências são extremamente perigosas, a última não menos do que a primeira.” Naquele momento, na Alemanha, as apostas eram altas, observou o psiquiatra aos 27 anos: “A miséria sexual dos jovens modernos é imensurável, mas muito disso está fora de vista, abaixo da superfície”. Seus oponentes tomaram essa declaração com o significado de que as crianças deveriam assistir o coito dos pais, apesar de Reich jamais ter defendido isso.
Ele persistiu, argumentando fortemente contra a monogamia e defendendo “relacionamentos amorosos duradouros” que não seriam codificados pela lei, mas unidos pelo amor; qualquer outra coisa levaria a um “embotamento sexual”. Ele atacou o status de dependência econômica das mulheres, que mantinha elas presas em casamentos forçados. E, o mais radical de tudo, ele sugeriu que as crianças deviam ser criadas por uma comunidade estendida, libertando-as, assim, das neuroses de seus país biológicos. (Essas atitudes eram até certo ponto influenciadas por experimentos sociais similares que ocorriam na União Soviética.)
Dr. Reich estava entrando num território tabu que poucos ousaram violar, um território que permaneceria tabu até muito depois dele. Mas suas experimentações – e, particularmente, a resposta que ele engendrou – o mudaram, para melhor ou pior. Quando ele se encontrou com Freud novamente em 1930, seu ex-mentor parecia agora diminuído. Dr. Freud, escreveu ele, era um “animal enjaulado”.


Em 1933, a postura sexual do Dr. Reich levou os nazistas a uma ação. Ele e sua amante escaparam para a Dinamarca – para serem expulsos pelo Partido Comunista Dinamarquês. Então, eles partiram para a Suécia, onde Reich foi colocado sob vigilância; depois de a polícia ver vários pacientes entrando e saindo de seu hotel, eles ficaram convencidos de que ele era um cafetão. As autoridades negaram sua permanência no país. Mais choques se seguiriam: não só seu contrato de publicação do livro Análise de Caráter tinha sido cancelado, como, em 1934, quando ele apareceu na conferência anual da Associação Internacional de Psicanálise em Lucerna, ele foi informado que tinha sido expulso no ano anterior. Como convidado, ele apresentou um trabalho na conferência, mas o episódio marcou o fim de seus laços com a comunidade científica predominante para sempre.
“Disseram-me que meu trabalho em psicologia de massas, que era direcionado contra a irracionalidade do fascismo, tinha me colocado numa posição demasiada exposta”, ele escreveria mais tarde. “Por isso, minha filiação [...] não era mais sustentável. Quatro anos mais tarde, Freud fugiu de Viena por Londres, onde os grupos de psicanálise foram destruídos pelos fascistas [...] Subsequentemente, evitei contato com meus antigos colegas. O comportamento deles não era nem melhor nem pior do que o normal em casos assim. Isso era baixo e desinteressante. Uma boa dose de banalidade é tudo o que é preciso para abafar um assunto.”

Discussão na conferência de Lucerna, agosto de 1934: Erwin Stengel, Grete Bibring, Rudolph Lowenstein e Wilhelm Reich.
“Consegui um Acumulador de Orgônio – E Isso Fez Eu me Sentir Incrível”
Foi na Noruega, onde ele se estabeleceu nos cinco anos seguintes, que o Dr. Reich desenvolveu uma nova teoria: ele passou a acreditar que o orgasmo carregava uma energia real, batizada de orgônio e expressa não somente pela resposta orgásmica, mas, na verdade, na energia vital em si. Essa energia, em sua visão, permeava a natureza e o cosmos, expressando-se em fenômenos atmosféricos como a aurora boreal. (Freud tinha postulado uma teoria semelhante em 1890, mas desistiu da ideia.) Mais tarde, o Dr. Reich afirmou que o orgônio poderia ser observado de forma objetiva e que era composto de partículas azuis chamadas bions que ele havia observado no microscópio. Essa talvez seja a teoria mais controversa de Reich – uma tentativa de mover a psicanálise para além do reino das “ciências humanas” e direcioná-la para o campo da física e da biologia. Para a comunidade de psicanálise, isso era pura heresia.
Depois de enfurecer os psicanalistas, os comunistas e os fascistas, Dr. Reich agora se preparava para enfrentar o ataque direto da comunidade científica como um todo. Cientistas noruegueses travaram uma guerra contra ele na imprensa liberal, rejeitando sua pesquisa (e se recusando a submetê-la a um estudo detalhado de controle) e buscando deportá-lo. O governo norueguês, que já tinha sido criticado por deportar Trotsky, permitiu a estadia de Reich – mas o proibiu de praticar a psicanálise.


Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, Reich, então com 36 anos, fugiu para os Estados Unidos, estabelecendo residência em Forest Hills, Queens, e realizando experiências onde injetava bions em ratos com câncer. Mas Reich continuou a ser um ímã de infortúnio. No dia 12 de dezembro de 1941, cinco dias antes do ataque a Pearl Harbor e um dia depois que a Alemanha declarou guerra aos Estados Unidos, ele foi preso pelo FBI na Ilha Ellis. Mais tarde, isso se revelou um caso de identidade trocada com um dono de livraria comunista de New Jersey também chamado Wilhelm Reich – mas o FBI só iria reconhecer o erro dois anos depois, em novembro de 1943. Pelo resto daquele mês, Reich foi deixado dormindo no chão da cela juntamente com os membros presos do Bund Germano-Americano, uma organização nazista norte-americana que Reich estava convencido que queria matá-lo.
O FBI liberou Reich depois que ele ameaçou começar uma greve de fome, mas ele continuou na “lista de figuras chave” da Unidade de Controle de Inimigos Estrangeiros e ficou sob vigilância do Estado. O incidente demonstrou a Reich que ele podia ter deixado a Europa para trás, mas que não havia escapatória da psicologia de massas do fascismo.
Reich se tornou mais comprometido do que nunca com a causa de quebrar a blindagem emocional da humanidade. Em seguida, ele começaria a projetar o que se tornaria sua maior controvérsia: uma tentativa de aproveitar e concentrar orgônio com gaiolas de Faraday adaptadas, que ele chamou de acumuladores de orgônio. Isolados com materiais orgânicos como madeira e papel, o que Reich acreditava que forçava a energia do orgônio a oscilar dentro da caixa, o acumulador, segundo ele, podia curar distúrbios mentais e físicos – potencialmente até o câncer. No dia 13 de janeiro de 1941, Reich levou o dispositivo até Albert Einstein, que o testou entusiasmadamente e notou que os acumuladores criavam um aumento de temperatura. Mas quando o assistente de Einstein, o físico polonês Leopold Infeld, sugeriu que o acumulador de orgônio estava produzindo calor simplesmente por causa do gradiente térmico da sala, já que isso era elevado do chão, Einstein rejeitou as caixas e se recusou completamente a admitir novos testes com elas. Para Reich, isso foi um eco amargo da rejeição de Freud, o desprezo de outro guardião estabelecido e potencial figura paterna.
Reich adquiriu terras em Rangely, Maine, e abriu seu instituto “Orgonon”, onde ele continuaria suas pesquisas. Além do orgônio, ele identificou uma segunda força – a DOR ou “Deadly Orgone Radiation” (“Radiação Mortal de Orgônio”), um tipo de antimatéria orgásmica presente na (e responsável pela) degradação ambiental, que ele acreditava cobrir o mundo. Ele logo passou a ver seu trabalho em oposição direta ao que o governo norte-americano tinha feito em Hiroshima e Nagasaki: ele estava numa corrida armamentista pela energia da vida, não pela energia da morte.
Foi aí que Reich começou a construir enormes armas de orgônio que ele chamava de “cloudbusters” e que, segundo ele, podiam reverter a desertificação e criar chuva. Apesar de o governo usar a tecnologia de semeadura de nuvens desde os anos 1940 para tirar água de nuvens com iodeto de prata ou gelo seco, Reich usou uma abordagem menos convencional. Sua técnica de semeadura de nuvens pretendia tirar energia “ôrgonica” diretamente da atmosfera através de uma série de canos e depositá-la no solo ou num corpo de água, como um para-raios, criando nuvens na esteira do orgônio canalizado. Fazendeiros começaram a pagar para que ele produzisse chuva para suas plantações – supostamente com sucesso, pelo menos de acordo com os seus próprios relatórios.
Durante essa época, Reich afirmou que seus experimentos com as cloudbusters tinham gerado interesse de visitantes inesperados: ele acreditava que OVNIs alienígenas, ou “alfas de energia” na terminologia de Reich, estavam atacando a terra com DOR. Reich disse ter visto várias naves alienígenas sobre o Orgonon; uma vez, segundo o analista, ele e seu filho usaram uma cloudbuster para defender a Terra numa “batalha interplanetária em larga escala” no Arizona.



A resposta do FDA aos empreendimentos de Reich foi declará-lo uma “fraude de primeira magnitude” e obter uma liminar proibindo o envio interestadual de acumuladores de orgônio e qualquer literatura relacionada. Quando um dos associados de Reich desobedeceu a liminar, contra a vontade de Reich, e transportou um acumulador através das fronteiras estaduais, Reich foi preso por desacato e sentenciado a dois anos de cadeia.



Reich sendo escoltado para a Penitenciária Federal de Lewisburg, março de 1957.
Na Prisão Federal de Lewisburg, Reich ficou conhecido entre os outros prisioneiros como o “homem da caixa de sexo”. Em novembro de 1957, aos 60 anos, ele morreu de ataque cardíaco, dias antes de ser colocado em liberdade condicional. Nenhuma publicação psiquiátrica ou científica cobriu seu falecimento. Além de alguns jornais anarquistas, seu trabalho ganhou um obituário de apenas um parágrafo na Time:
“Faleceu. Wilhelm Reich, 60 anos, psicanalista outrora famoso, depois, mais conhecido por suas teorias não ortodoxas sobre sexo e energia; de ataque cardíaco; na Penitenciária Federal de Lewisburg, Pensilvânia; onde ele cumpria uma pena de dois anos por distribuir sua invenção, o 'acumulador de orgônio' (violando uma liminar do FDA), um aparelho do tamanho de uma cabine telefônica que supostamente reuniria energia da atmosfera e podia curar, quando o paciente se sentava dentro dele, gripes comuns, câncer e impotência.”
Uma década depois, no meio dos anos 1960, a Time ponderou que “Dr. Wilhelm Reich talvez tenha sido um profeta”, e “Agora, às vezes, parece que toda a América é uma grande caixa de orgônio”. Mas, em 1957, o mundo pouco se importou. Em vez de testar suas teorias ou simplesmente descartá-las, a FDA queimou Reich numa grande fogueira.


 Eu Ainda Sonho com Orgonon


Em sua busca por desenterrar as raízes das neuroses sexuais da humanidade, Reich desafiou quase todo o tabu da civilização ocidental, enfureceu quase toda força estabelecida da época e morreu na prisão por seus esforços. No entanto, sua influência pode ser ainda maior do que geralmente é creditado a ele.
Enquanto Reich definhava na prisão, a revolução sexual que ele tinha ajudado a iniciar estava começando a se manifestar. Elvis fez sua estreia na TV em 1956, mexendo seus quadris de uma maneira que, decididamente, irradiava orgônio, demonstrando o tipo de libertação de blindagem de caráter que Reich provavelmente queria de seus pacientes. No meio dos anos 1960, com o lançamento da pílula anticoncepcional, a revolução sexual estava em pleno andamento. (Aliás, “revolução sexual” é um termo cunhado por Reich.)

“QUANDO ENTREI NO ACUMULADOR E ME SENTEI, NOTEI UM SILÊNCIO ESPECIAL QUE, ÀS VEZES, SE SENTE NAS FLORESTAS PROFUNDAS [...] MINHA PELE ARREPIOU E EXPERIMENTEI UM EFEITO AFRODISÍACO SIMILAR AO DE UMA ERVA BOA E FORTE. O ORGÔNIO É DEFINITIVAMENTE UMA FORÇA COMO A ELETRICIDADE.” – WILLIAM S. BURROUGHS

Estudantes que participavam dos protestos em Paris e Berlim em 1968 jogavam cópias do Psicologia de Massas do Fascismo de Reich nos capacetes dos policiais. Jack Kerouac e Allen Ginsberg abraçaram as teorias de Reich; William S. Burroughs investigou os acumuladores de orgônio por anos e escreveu extensivamente sobre eles em seu trabalho. Ele chegou mesmo a construir sua própria caixa acumuladora, onde ele entrava para escrever (enquanto fumava haxixe).
“Quando entrei no acumulador e me sentei, notei um silêncio especial que às vezes se experimenta nas florestas profundas, às vezes numa rua da cidade, um zumbido que é mais vibração rítmica do que um som”, escreveu ele em Junky. “Minha pele arrepiou e experimentei um efeito afrodisíaco similar ao de uma erva boa e forte. Não há dúvida, o orgônio é uma força definitiva como a eletricidade. Depois de usar o acumulador por vários dias, minha energia voltou ao normal. Comecei a comer e não consegui dormir mais de oito horas. Eu estava no período pós-cura.” Assim como fez com a ayahuasca, Burroughs tentou curar a si mesmo do vício em heroína e da síndrome de abstinência com o acumulador. (Apesar de tentar quase todas as curas para vício em heroína do planeta, Burroughs nunca conseguiu permanecer limpo por muito tempo e morreu num programa de manutenção com metadona.)




Kurt Cobain visitou William Burroughs em 1993. “Sentei na máquina de orgônio e havia viúvas negras lá dentro, ele [Burroughs] ainda tinha uma e eu estava com medo, porque tenho aracnofobia. Ele teve que matar todas as aranhas para mim.”
Saul Bellow, J.D. Salinger, Michael Foucault e Norman Mailer também desenterraram Reich; como Burroughs, Mailer construiu seus próprios acumuladores e saiu em busca de liberar a si mesmo por meio do que ele descreveu como um “orgasmo apocalíptico” – em seu ensaio “The White Negro”, Mailer fala do antiautoritário como aquele que “busca amor [...] amor como a busca de um orgasmo mais apocalíptico do que aquele que o precedeu”. Mesmo Sean Connery mergulhava em orgônio em seu próprio acumulador enquanto filmava alguns de seus filmes do James Bond.


New York Times, numa crítica literária de A Psicologia de Massas do Fascismo, pediu uma reavaliação séria do trabalho do analista. Reich logo ficou tão em moda entre os intelectuais que, em 1968, Roger Vadim atormentou Jane Fonda com uma máquina do prazer criadora de orgônio em Barbarella, e Woody Allen fez uma paródia do acumulador de orgônio como o “Orgasmatron” em O Dorminhoco, de 1973. Quase uma década depois, Kate Bush e Terry Gilliam contariam a história de Reich no vídeo “Cloudbusting” de Bush, onde Donald Sutherland interpreta Reich e Bush faz o papel de seu filho Peter.

Clipe de “Cloudbusting” de Kate Bush, 1986, dirigido por Julian Doyle e concebido por Bush e Terry Gilliam. A ambivalência compreensível da disciplina psicanalítica sobre Reich não tinha mudado, mas a cultura sim. As ideias de Reich encontraram um interesse mais amplo. Como Norman Mailer resumiria depois para seu analista Walter Kendrick: “O que era importante para mim era a força, a clareza, o poder dos primeiros trabalhos [de Reich] e a audácia. E também o fato de que acredito, num sentido básico, que ele estava certo”.
As ideias de Reich nunca foram reavaliadas pela comunidade científica – nem pelos psicanalistas, que ainda o consideram uma mácula em sua história. Ainda assim, suas ideias terapêuticas se infiltraram numa comunidade psicanalítica mais ampla e tomaram novas formas, sob novos nomes, contribuindo para a psicologia corporal, psicologia do ego, a terapia Gestalt de Fritz Perls (que tenta tratar o paciente como um todo, não só seus sintomas individuais) e a terapia do grito primal de Janov (que, como a terapia de Reich, utiliza o grito e a vocalização para abrir a blindagem do paciente).
Em muitos aspectos, a influência de Reich pode ser detectada de modo mais flagrante na grande variedade de terapias corporais de “bem-estar” e mesmo na grande popularidade da massagem e da ioga. A ideia de Reich de que o homem era pego na “armadilha” da blindagem de seu próprio caráter encontrou um lar nos movimentos nascentes da Nova Era e do Potencial Humano.



A casa, laboratório e escola de Wilhelm Reich é agora um museu em Rangeley, Maine. A antena astrolábio (esquerda) está montada no topo do observatório para detectar Energia de Orgônio. O lago Rangeley pode ser visto abaixo. Uma das “cloudbusters” de Reich (direita), no observatório. Fotos por Michael Kassner, CLUI.
Os livros de Reich continuam sendo publicados pela Farrar, Strauss e Giroux, e o American College of Orgonomy, em Princeton, Nova Jersey, continua sua linha de pesquisa, publicando o Journal of Orgonomy, realizando palestras públicas e oferecendo aulas de sensibilização. Terapeutas reichianos, apesar de em número cada vez menor, continuam a praticar suas ideias. O mundo dos reichianos, no entanto, continua fechado, seja por falta de interesse do público ou pela mentalidade de cerco dos defensores restantes de Reich. Alguns reichianos desonestos, como James De Meo, continuam a tentar novos experimentos, mas gerando cada vez menos publicidade. Os arquivos do Dr. Reich são mantidos pela Wilhelm Reich Infant Trust no Orgonon. Seu local de descanso final está na propriedade de 175 acres de floresta. O local é aberto a visitas.


Apenas 50 anos depois da revolução sexual que Reich previu, vivemos numa sociedade hiperssexualizada – um lugar onde somos constantemente barrados pelo oposto de repressão sexual. Tudo à nossa volta parece dificilmente acumular algum orgônio – propaganda, música pop, televisão, revistas, pornografia na internet.
Mas mesmo que a humanidade do século XXI possa parecer mais sexualmente liberada, Reich provavelmente teria visto o super estímulo da mídia como somente outra forma de “fugir” do contato amoroso com outro ser humano. Fervorosamente contra a pornografia, Reich talvez enxergasse uma civilização debruçada sobre computadores e bancadas de fábricas exploradoras, trocando a conexão com o físico pela conexão com um smarthphone, e concluiria que a “praga emocional” continua viva e bem. Talvez ele enxergasse uma população mais blindada do que nunca, imersa num ambiente cheio de variantes da DOR, fora de contato com a vida, e necessitando talvez de uma liberação sexual completamente nova – um retorno ao mundo físico.
Jason Louv dirige o blog futurista Ultraculture.org, e canaliza dados do lado negro no @jasonlouv.

viernes, diciembre 09, 2016

EL HUMANISMO DESENCANTADO DE PRIMO LEVI (Y II) | Rafael Narbona

EL HUMANISMO DESENCANTADO DE PRIMO LEVI (Y II) | Rafael Narbona







El Evangelio de Juan atribuye a la Palabra la creación del mundo. Dios es el Verbo, el Logos, y separó la luz de las tinieblas, impidiendo que prevaleciera la oscuridad. En Auschwitz, impera la oscuridad porque no hay palabras para expresar la ofensa que representa «la destrucción del hombre». Su lógica es puramente negativa, pues despoja a los deportados de todo, reduciéndolos a la pura animalidad de la res confinada en un matadero, sin otra perspectiva que ser sacrificada: «En un instante –escribe Primo Levi−, con intuición casi profética, se nos ha revelado la realidad: hemos llegado al fondo. Más bajo no puede llegarse: una condición humana más miserable no existe, y no puede imaginarse. No tenemos nada nuestro». La forma de proceder de los verdugos no obedece sólo a la crueldad, sino al propósito de liquidar la identidad de los prisioneros, su ser íntimo y personal. «Nos quitarán hasta el nombre: y si queremos conservarlo deberemos encontrar en nosotros la fuerza de obrar de tal manera que, detrás del nombre, algo nuestro, algo de lo que hemos sido permanezca». Si a un hombre se lo despoja de cualquier objeto personal –«un pañuelo, una carta vieja, la foto de una persona querida»−, deja de ser un hombre, pues esos objetos no son cosas, sino una parte de su historia. Las señas de identidad incluyen una dimensión material: un domicilio, una forma de vestir, pequeños fetiches. Privado de eso, «será un hombre vacío, reducido al sufrimiento y a la necesidad, falto de dignidad y de juicio, porque a quien lo ha perdido todo fácilmente le sucede perderse a sí mismo». El Lager es «un campo de aniquilación». La aniquilación física no es menos importante que la aniquilación psíquica. El sentido último del sistema de campos de concentración no es el exterminio, sino la reinvención de lo humano, destruyendo a los individuos que no se ajustan a un canon. Sólo se considera persona al que presuntamente merece formar parte de una comunidad basada en mitos y falacias, no al individuo que reclama su derecho a la diferencia.
En Auschwitz, Primo Levi se convierte en un Häftling: «“Me llamo 174.517”; nos han bautizado, llevaremos mientras vivamos esta lacra tatuada en el brazo izquierdo». En el Lager «no hay ningún porqué»: la arbitrariedad es la única regla. «En este lugar está prohibido todo, no por ninguna razón oculta sino porque el campo se ha creado para este propósito». No es posible elaborar un proyecto, fijarse una meta, pues el sentido de las alambradas es segregar a los deportados de la familia humana, extirpándoles esa raíz común que nos permite afrontar el tiempo con una perspectiva racional. La esencia del ser humano no es la mera supervivencia, sino un quehacer que imprime sentido a sus actos. Un quehacer que responde a un fin libremente elegido, no una rutina impuesta. En el Lager, «el futuro remoto se ha descolorido, ha perdido toda su agudeza, frente a los más urgentes y concretos problemas del futuro próximo: cuándo comeremos hoy, si nevará, si habrá que descargar carbón». En esas condiciones, no es posible aferrarse al pasado, evocar el hogar perdido. Es mejor no pensar, no recordar, pues la nostalgia sólo agrava el sufrimiento. El hambre ayuda a vaciar la mente, «un hambre crónica desconocida por los hombres libres, que por las noches nos hace soñar y se instala en todos los miembros del cuerpo». El ser humano desciende hasta la pura animalidad, incluso más abajo, pues nunca conoce la paz del hambre satisfecha, del instinto aplacado, del puro placer de estar tumbado al sol o dormitar tranquilamente.
Auschwitz se parece a la Torre de Babel. Circulan todos los idiomas, mezclados en una jerga que compone un idioma específico, la lengua del Lager. Entenderla, hablarla, es requisito indispensable para sobrevivir. Asearse no es menos necesario, aunque sólo se disponga de un hilo de agua sucia y helada. El reglamento del campo exige mantener cierta limpieza o, al menos, la apariencia de cumplir ciertos ritos asociados a la disciplina de un centro penitenciario. No obstante, acatar esa norma no es un gesto de sumisión, sino de dignidad. Si el deportado se abandona, si pierde el hábito de la higiene y anhela la muerte, se convertirá en un «musulmán» (apelativo asignado a los que se habían hundido, a los que ya no hacían ningún esfuerzo por preservar su vida) y será seleccionado para morir en la cámara de gas. En ese contexto, sobrevivir para narrar lo sucedido adquiere el valor de un acto de resistencia. Sin embargo, ese propósito –aplazado hasta una hipotética liberación− no aplaca el dolor de despertar cada mañana y descubrir que sólo eres un Häftling. Ese momento de conciencia es «el sufrimiento más agudo», especialmente cuando la mente sale de un sueño melancólico o tibiamente dichoso.
En Auschwitz, el espanto convive con lo grotesco. La orquesta del campo interpreta marchas y canciones populares, mientras el humo de los crematorios oscurece el cielo. No es una música banal concebida para distraer la atención o combatir el hastío (al igual que el infierno, el campo es una rueda que repite a diario la misma rutina), sino «la voz del Lager, la expresión sensible de su locura geométrica». La música actúa como un oleaje invisible sobre las almas muertas de los deportados, arrastrándolos como a hojas secas. Es un simulacro de una voluntad colectiva inexistente, que pone en movimiento a una humanidad humillada y sin otro horizonte que ser reducida a cenizas y desaparecer en las aguas del Vístula. La muerte en Auschwitz siempre es anónima e irrelevante, pues el campo no es una prisión, sino un matadero industrial ideado por una bipolítica cuyo objetivo es pulverizar la noción de individuo. Los judíos no son personas, pues no pertenecen a la comunidad exaltada por la filosofía de la Sangre y el Suelo. No se reconoce su derecho a ser distintos, a no asimilarse, y no se les ofrece la oportunidad de una supuesta redención, aunque renuncien a su identidad. Las víctimas del poder totalitario devienen antes o después en masa angustiada, sometida al martirio de Tántalo, que bestializa al ser humano, rebajándolo a las funciones básicas de ingesta y excreción. El hambre convierte al individuo en un tubo, que ingiere comida –una sopa inmunda− y la expulsa, casi siempre en forma de heces líquidas.
El despertar en Auschwitz nunca es plácido: «Son poquísimos los que esperan durmiendo el Wstawac: es un momento de dolor demasiado agudo para que el sueño no se rompa al sentirlo acercarse». Auschwitz no es simplemente un castigo, sino el patio trasero del Estado-jardín nazi. Es el lugar al que se arrojan los desperdicios, poco antes de triturarlos o incinerarlos. En la distopía nacionalsocialista, la humanidad se divide en compartimientos estancos. Los no deseados acaban en el vertedero. Las distinciones morales carecen de sentido entre las alambradas. No hay buenos y malos en la horrible coreografía de los deportados, sino hundidos y salvados. Una lógica binaria que suprime los lazos de amistad y parentesco: «cada uno está desesperadamente, ferozmente solo». La muerte no puede inspirar luto o duelo, cuando cada minuto exige permanecer alerta para no ser el próximo en caer. No es suficiente obedecer, cumplir las órdenes, ser sumiso. Hay que recurrir al ingenio, a la indignidad, a la capacidad de improvisación del animal acosado, que sólo piensa en cómo escapar. La opresión extrema mata el espíritu de resistencia y cualquier forma de solidaridad. No es posible combatir a un enemigo descomunal, con un eficaz sistema de deshumanización. Los deportados que han sobrevivido a sucesivas selecciones no piensan en el futuro, ni hacen preguntas. El otro sólo es una sombra que desfila a su lado: «Los personajes de estas páginas –escribe Primo Levi− no son hombres. Su humanidad está sepultada, o ellos mismos la han sepultado, bajo la ofensa súbita o infligida a los demás». Todos están confundidos –y, al mismo tiempo, borrados− en la misma desolación.
Primo Levi no cree en Dios, pero se pregunta si las abominaciones que acontecen en el Lager no conforman un nuevo libro del Antiguo Testamento, un nuevo Éxodo, pero sin la expectativa de la Tierra Prometida. Los nazis intentan crear un hombre nuevo, destruyendo al hombre viejo, al judío-bolchevique que se opone activa o silenciosamente a la utopía de un mundo de soldados-campesinos, o, por utilizar la famosa expresión de Jünger, de «trabajadores» que transitan sin problemas del arado al fusil, de la fábrica al campo de batalla. Cuando los alemanes huyen del avance de los rusos, los escasos supervivientes recuperan poco a poco su humanidad, compartiendo los restos de comida que aparecen en un almacén abandonado. El primer gesto de solidaridad significa el fin del Lager. Los prisioneros vuelven a ser hombres: lenta, penosamente.
El humanismo de Primo Levi supera la durísima prueba del Lager. No piensa que el régimen de terror y vejación al que eran sometidos los deportados mostrara crudamente al hombre desnudo, sin la capa de civilización que esconde supuestamente un primitivo y genuino instinto depredador: «No creo en la más obvia y fácil deducción: que el hombre es fundamentalmente brutal, egoísta y estúpido tal y como se comporta cuando toda superestructura civil es eliminada, y que el Häftling no es más que el hombre sin inhibiciones». Primo Levi experimentó desencanto al comprobar que el ideal humanista se rompía en mil pedazos bajo el peso del poder totalitario, pero no identificó la condición humana con sus aberraciones ideológicas, ni con los impulsos más abyectos del nacionalsocialismo. El nazismo fue una ideología que fundió materiales diversos (darwinismo, racismo, nacionalismo, militarismo, esoterismo) para liquidar el concepto de cultura surgido en la Europa ilustrada y consolidado el liberalismo político del siglo XIX, que reconoció el derecho a disentir en el marco de una sociedad abierta y diversa, compuesta por ciudadanos con derechos inalienables. Para destruir ese modelo social, el nazismo privó al individuo de cualquier forma de autonomía, incluso en su dimensión más elemental e ineludible.
En Los orígenes del totalitarismo (1951), Hannah Arendt apunta que «los campos de concentración […] privaron a la muerte de su significado como final de una vida realizada. En un cierto sentido arrebataron al individuo su propia muerte, demostrando con ello que nada le pertenecía y que él no pertenecía a nadie. Su muerte simplemente pone un sello sobre la voluntad de anular su existencia, incluso como recuerdo. Es como si nunca hubiera existido». Se mata a un hombre como se mata a una res, aprovechando sus restos para diversos usos. Se ahoga el grito de las víctimas como se insonoriza un matadero. Se intenta, en definitiva, dejar claro que no se mata a seres humanos. Auschwitz nos obliga a repensar nuestro concepto de la cultura y el hombre. No se trata de una matanza más, sino de un experimento que se repetirá en Ruanda, Camboya y Bosnia-Herzegovina. Si esto es un hombre nos dice que la cultura es un ideal de convivencia pacífica. El respeto por el otro, particularmente cuando nos separan muchas cosas de él, es la expresión más refinada de la interacción humana. Si el hombre olvida su responsabilidad hacia los demás, comienza la caída hacia el estado de naturaleza, donde reina la guerra, la lucha sin cuartel por la supervivencia. Afortunadamente, Auschwitz fracasó y fracasa cada día, pues cuando se extingue la violencia, reaparece poco a poco el respeto y la solidaridad. El hombre no es Hitler, embriagado por la voluntad de poder y la fantasía del Lebensraum o espacio vital, sino Primo Levi escribiendo un testimonio donde el dolor no desemboca en el odio y la desesperación, sino en la serenidad y el anhelo de paz y justicia.
RAFAEL NARBONA

viernes, diciembre 02, 2016

De los ecuató al Primark. Qué va a saber una negra

De los ecuató al Primark. Qué va a saber una negra | FronteraD



Trifonia Melibea Obono. Fuente: birdlikecultura.files.wordpress.com

De los ecuató al Primark. Qué va a saber una negra

Trifonia Melibea Obono - 02-12-2016
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Maletas llenas, muchas. Es Iberia, Ceiba, posiblemente. Las colas larguísimas. Ni la hora de facturación recuerdan los ecuató. Las maletas, ¡son tantas por persona!, lo que llevarán... Antes cargaban con mesa mot o Gabónel bolso de los ecuató, de extensión desmedida y vergüenza fácil. Parecían las chanclas de un dedo de fabricación ¿nigeriana? ¿Camerunesa? De esquina en rincón se desgajaban inexplicablemente. Sin más, las lámparas de bosque, los cigarrillos, las bragas y los calzoncillos, nilón de pescar, azúcar, etcétera, bailaban en las manos con desmoralización y al contado. Un comentario antipatriótico suena sin voz. De la hora de facturación no, los ecuató,ninguna, llegan tarde a todas partes, de esta gente solo queda rezar, memorias de algún diplomático español. Es Madrid, el Aeropuerto de Barajas Adolfo Suarez recibe al año millones de visitas. Tú y yo, la patria profunda, representamos una excepción.

Apátridas y a la vez estudiantes sin beca, y de habla castellana, me importunan en las escaleras mecánicas y ascensores rueda de plástico en mano. Así pagamos los estudios, insisten. El servicio de embalaje o juego de envolver maletas con plástico fuerte tipo condón de látex, es nuestra identidad en el Aeropuerto de Barajas Adolfo Suarez. Las personas viajando, miran asombradas. Otras se preguntan el país de destino. Nadie objeta. El robo aguarda. Las miradas hablan, se ríen y lloran. El fang y el pidjinenglish se escuchan entre risas y charlas casi de la aldea. Nadie escucha más que al siguiente de la cola. Una mujer pide ayuda. Le sobra una maleta. Un hombre pide ayuda. Le sobra una maleta. Tienen que encasquetársela a alguien por solidaridad cristiana que por aquí, desconozco si queda, en Guinea, tampoco. Otra compatriota llora el destino de su pasaporte olvidado en la agencia de envíos y recibos de dinero. Un joven le llora a su madre muerta de brujería.

Una familia acompaña a una muchacha veinteañera, estudiante de derecho que tras cinco años vuelve a sus orígenes con indicaciones concisas: aprende a callarte en Malabo, esto no es Madrid. Tú no eres el problema, las ideas revolucionarias que tienes en la cabeza y la lengua tuya, casi siempre suelta, sí. Y camina como una chica normal. Cambia estas pintas de Pablo Iglesias, el líder de Podemos, este fumeta que no mide las consecuencias de sus actos. De regreso a Madrid cambias de carrera. Estudiarás matemáticas. Para callarte del todo en alguna oficina. La muchacha ni escucha. Esta fascinada por el WhatsApp.

Las luces están encendidas, los policías desnudan con el escáner a todo viviente. Me toca la mala suerte. Llevo algo prohibido. Tres veces me examinan. Anda conmigo algo raro. No tiene nombre. Minutos después la Guardia Civil me lleva a una oficina que  recuerda la herencia Española a Guinea. Todo en su sitio. Todo fuera de sitio. Yo en ningún sitio. Una policía, a la que mandan llamar, toca todas mis partes, las manos cubiertas de yo que sé. Soy para ella una máquina, ni si quiera me mira a los ojos, habría recibido una paliza, mezcla de herencia bantú y Lazarillo de Tormes a través de mi mirada. Se va.

Toman mis datos en constante distracción. Se creen que soy estúpida. Qué va a saber una negra. Me registran en un ordenador antiquísimo. Cuál es mi profesión, mi religión, con quiénes ando. Al menos aquí puedo hablar, pronto se me arranca el derecho a la libertad de expresión. No me extraña, la patria profunda. La última vez que salí de marcha. Me cago en vuestros muertos, esa agresión a mis derechos la voy a documentar, les amenazo. Todo ha salido bien, dicen al final, estás limpia. ¿De qué? Sustancias… Me he puesto alguna crema antes de viajar con composición de… hablan entre ellos. Pregunto por el listado de cremas de uso prohibido en caso de viaje, no contestan. Me miran, la memoria viaja a mi patria profunda, a los guardianes del orden que presumen de saberlo todo. Yo me lo creo todo. No me queda otra opción. 

Soy ecuató, estoy aquí de compras, PRIMARK, centro comercial de ropa procedente del Tercer Mundo me conoce ya. Eso sí. No traigo el bolso de los ecuató sino maletas chinas de arranque inmediato. De mí solo queda rezar. Lo he comprado todo para la familia. Me recibirán al llegar como a un líder oriundo de la zona geopolítica B con víveres. Saludos. Hola Adolfo Suarez. Me voy, allí te quedas con tu organización de rentabilidad. Me imagino lo bien que el dinero público se recupera con el negocio… instalaciones de dinero. Podríamos copiar para nuestra inversión pública ¿no? Hasta el camino a tomar el avión pasa por perfumerías, cafeterías, librerías, farmacias. El dinero público se invierte, no se gasta. Una mujer trae a un niño de cuatro años. Quiere que alguien le lleve como un recado de panes de mantequilla hasta Guinea. La gente mira. Un hombre mayor se ofrece. Asientos, es hora de volar. El avión no ha llegado al aeropuerto de Barajas Adolfo Suarez procedente de Guinea. Las compañías de otros países vienen, se van. La población guineoecuatoriana mira, se calla y murmura. Toca esperar. Los personajes de la patria profunda aquí son personas pero no llevan bolsos de los ecuató. Yo entre manos, maletas chinas embaladas, miembro de la patria profunda, imagen de una guineoecuatoriana en el Aeropuerto de Barajas Adolfo Suarez.




Trifonia Melibea Obono (Afaetom, Evineyong, Guinea Ecuatorial, 1982) es periodista y politóloga, docente e investigadora sobre temas de mujer y género en África. Licenciada en Ciencias Políticas y Periodismo por la Universidad de Murcia y Máster en Cooperación Internacional y Desarrollo en la misma universidad.
Es docente en la Facultad de Letras y Ciencias Sociales de la UNGE (Universidad Nacional de Guinea Ecuatorial) de Malabo desde 2013. También forma parte del equipo del Centro de Estudios Afro-Hispánicos (CEAH) de la Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED). Ha sido incluida en la antología Voces femeninas de Guinea Ecuatorial. Una antología editada por Remei Sipi, y es autora de las novelas Herencia de bindendee La bastarda.

lunes, noviembre 28, 2016

Mohsen Emadi - La magia y el milagro

No.093_Coparticipantes de la luz - Mohsen Emadi - La magia y el milagro





La magia y el milagro 

Mohsen Emadi
1. Una antigua leyenda persa narra la historia de una mujer sola que escapa de sus enemigos. La mujer llega a una montaña y la siguen de cerca, a punto de atraparla. La montaña la devora, le da refugio, y una parte de su velo queda fuera de montaña. Al mismo tiempo nace una fuente en el lugar de su desaparición. La mujer ya pertenece a la montaña. Los Zaratustrianos y los Chiitas nos cuentan la misma historia. En una versión la mujer escapa de los conquistadores árabes y en la otra de los fundadores del Califato Omeya. La montaña para los Zaratustrianos reside en los desiertos centrales de Irán y en el folclore Chiita por los montes de Alborz, en el norte de país. Se dice que si cortan un pedazo del velo, crece otra vez. Además, creen que este lugar puede devolver la fertilidad a las mujeres estériles. El folclore del norte de Irán, describe así el momento de su desaparición: Ella sabía de un conjuro que la podría ayudar en el peligro. Debería decir: “¡Ya Hu!” que significa ¡Ay, él! Él ―en este contexto− refiere a lo divino. Pero la mujer en la angustia de su condición tuvo un lapsus. Dijo: “¡Ya Ku!” y Ku ―abreviatura para Kuh− significa montaña. Este lapsus fue la causa de que la montaña la abrazara y la devorara. Quizá esta creencia folclórica parezca ridícula pero, más allá de la antigua relación entre la montaña y lo divino en la historia del pensamiento, revela otra cosa: El poder de la palabra donde ésta ―el logos−, se cumple a sí misma. La mujer en la leyenda utiliza la palabra con el mismo poder que el dios de Abraham al decir “Haya... y Hubo”. La mujer puede tener un lapsus, pero la palabra nunca cometerá errores. Me pregunto: ¿Cómo se cumple la palabra?


2. Desde la lejanía de Japón hasta las fronteras de Troya, hubo un histórico movimiento de los pensadores a quienes llamamos “los sabios locos”. En Japón, Ryokan (1758–1831) es un gran miembro de este movimiento. Ryokan, se describe así en un poema: Ryokan, el gran maestro Zen, un tonto, un estúpido. Son conocidas las historias de él jugando con los niños. En un cuento Ryokan juega al escondite. Fue su ronda para esconderse y el poeta se esconde dentro de un montón de paja, los niños no lo pueden encontrar y cansados se marchan a sus casas. Por la mañana siguiente, cuando el campesino quiere recoger su paja, encuentra al poeta. Sorprendido le pregunta: ¿Qué haces aquí? Y el poeta responde: “¡Shh, cállate! los niños me encontrarán.”

En Irán, “Baba Taher Oryan” (938–1021) [El padre limpio y desnudo], es otro ejemplo de los sabios locos. Se dice que un día él, que fue un analfabeta, visita una escuela. Allá pregunta a un académico: “¿Qué ha hecho usted para tener tanta sabiduría?” El académico para burlarse de este hombre simple y analfabeta, responde: “Una noche de invierno, en el frío absoluto, rompí el hielo del estanque congelado y pasé una noche allí, por la mañana se me abrieron las puertas de la sabiduría”. Baba Taher no sabe que el académico se está burlando de él y una noche de invierno, en la feria de Hamadan, la misma ciudad que fue el mirador de Hamadani (siglo XII), rompe el hielo del estanque congelado y resiste hasta la mañana en él. Por la mañana, se levanta como Baba Taher Oryan. La burla del académico se hizo verdad. Baba Taher es una de pocas figuras en la historia oficial de la literatura persa cuya poesía tiene acento. A pesar del conservadurismo que sostuvo el persa oficial frente a los acentos y los dialectos, no fue capaz de borrar el acento de la poesía de Baba Taher. Aceptó su poesía como tal. Su poesía es simple y desnuda. La combinación de locura y sabiduría daba un poder enorme a los poetas como él. Su locura parecía de tipo infantil, y por eso los poderosos, como si estuvieran frente a un niño, se desarmaban y, así, tenían que escuchar las más duras críticas bajo el nombre de locura. Se dice que un día, Toğrul (990−1063), el conquistador, vino a Hamadan, y todos los grandes de la ciudad fueron a recibirlo con un regalo exquisito. Baba Taher encuentra un pedazo de hierro oxidado en el camino, lo dobla y transforma en un anillo, lo pone en la mano del conquistador y dice: “En este mismo anillo que dejé en tu mano, está la reina de todo el universo”. Esta expresión, además de afirmar que solo este poeta loco tiene el poder de regalar la reina del universo, habla de otra cosa: La reina de todo el universo es como un hierro oxidado que desaparecerá. En un poema de amor, Baba Taher escribe: “Por las noches abrazo tu fantasma en mis sueños, por la mañana mi cama huele a flores”. Me pregunto: ¿Abrazar a una fantasma, una imagen, cómo cambia la realidad física? ¿De la relación entre la imagen de la amada con el amado, qué cosa cambia en la realidad de su cama? ¿De dónde surge este perfume de flores? ¿A qué categoría de la realidad pertenece esta otra realidad?

3. La historia de las religiones está llena de interferencias de la imaginación en la realidad. Por ejemplo, con respecto a la histórica lucha de Platón contra los poetas se encuentra una sutra, un capitulo del Corán, en concordancia con Platón, que se llama “Los poetas”. El hecho de que uno de los 114 capítulos del Corán hable especialmente de los poetas, muestra la preocupación y la ansiedad del Corán en este asunto. El capítulo está muy bien estructurado. El Corán, empieza con la famosa historia del Faraón, los magos y el milagro de Moisés. La historia se encuentra en el Éxodo con poca diferencia. Se dice que los magos tiran sus bastones y todos se convierten en serpientes. Pero el bastón de Moisés se convierte en un dragón que devora las serpientes. El dragón, siempre juega un papel muy importante en la mitología de varias culturas. La serpiente refriere a la realidad física y el dragón a la realidad mitológica. En esta leyenda, la realidad mitológica devora a la realidad física. Los intérpretes del Corán utilizan la famosa dualidad del milagro y la magia para hablar de estos dos entornos de la realidad. En su opinión, el milagro cambia la realidad física en su esencia y la magia representa la realidad en otra forma. Es decir, la magia actúa al nivel de la apariencia, no en la esencia. La lucha entre Moisés y los magos en esta escena es la lucha entre la esencia y la apariencia. Es decir, el dragón de Moisés se encuentra en los círculos de la verdad y las serpientes de los magos en los círculos de la mentira. Esta misma dualidad, a finales de este capítulo, es la causa de que el Corán llame mentirosos a los poetas. Los poetas, en la opinión de Mahoma, son como los magos del Faraón, y el Corán mismo es el bastón de Moisés. Tampoco en Las mil y una noches, los talismanes y los conjuros cambian la esencia de los objetos y, por eso, cuando un hombre es convertido en mono por un demonio, los magos son capaces de distinguir su esencia de su apariencia. En cambio, todos los milagros de los profetas reclaman cambiar la realidad física en su esencia. Por ejemplo, Jesús en la realidad física devuelve la vida a los muertos, o Mahoma corta la luna en dos, en su realidad física. Sin embargo, la religión rechaza todos los discursos ajenos sobre el milagro. Por ejemplo, se dice que Al-Muqanna (muerto en 783) fue un profeta persa que llevaba al cielo otra luna desde el pozo de Najshab, y en el cielo aparecieron dos lunas al mismo tiempo. Mucha gente confió en Al-Muqanna y el Califa mandó sus militares para matarlo. Cuando se acerca el ejército del Califa a la ciudad, no lo encuentran. Dicen que se suicidó en un barril de ácido. La luna de Al-Muqanna en el barril de ácido, se desvanece de la realidad física, y en la poesía persa se convierte en una metáfora de la amada. La palabra milagro, en latín remite a la admiración por el asombro. En persa y árabe se refiere a lo imposible. El milagro es hacer posible lo imposible. En cambio, la palabra magia en persa y árabe refiere a engaño, cambiar la dirección de la mirada, y es una cortina. En español, esta palabra viene de la griega mageia (μαγεία) y tiene sus raíces en persa y sánscrito. En antiguo persa, la palabra refiere al poder y en sánscrito a la ilusión. Así que la palabra milagro está vinculada con el círculo de conceptos como el asombro y lo imposible, y la palabra magia tiene vínculos con conceptos como ilusión, cortina engañosa y poder. Me pregunto ahora: ¿Quién hace posible lo imposible?

4. A lo largo de la historia no fueron solo los profetas abrahámicos los que eran capaces de realizar el antiguo sueño de hacer posible lo imposible. La gente inventó tal capacidad hasta para figuras como Budha, que nunca se proclamó profeta. Attar (1145–1221) en un libro, hace una recopilación de las leyendas y los milagros de los místicos. En este libro, los místicos caminan sobre el agua, con un simple gesto domestican a los animales salvajes, y dan noticias del futuro. La rebeldía de la imaginación contra la rigidez del mundo físico grita en cada línea de este libro. El místico se rebela contra el tiempo y el lugar. En una escena, un místico transita durante años por los desiertos para la peregrinación de la Kaaba. Cuando llega a la Meca no encuentra la Kaaba en su lugar. Unas líneas después, Attar utiliza la voz de lo divino para señalar al místico, que la Kaaba no está en su lugar porque se fue para recibir a una mujer mística, Rabia al Adawiyya (714/717/718-801). Attar, aunque preserva la figura trágica del Mansur al-Hallaj (858-922), nos deja en una condición de asombro. Hallaj es capaz de liberar 300 presos con un gesto, pero él mismo no quiere escapar y encuentra su sueño en la horca. En la narración de Attar, la primera noche que encarcelan a Hallaj, los guardianes no lo encuentran en su celda, está desaparecido. En la segunda noche, su celda desaparece. En tercera noche, él regresa a la celda por voluntad propia. En las historias de la muerte de Hallaj, Attar muestra que cada órgano de su cuerpo, hasta su ceniza, y cada gota de su sangre, gritan la palabra ‘verdad’ de este poeta y pensador. En los textos de Attar, se dice que en el juicio final será necesario traerlo encadenado, porque su locura puede hacer temblar a los cielos. No es solo Attar quien cuenta tales historias. En la historia del misticismo se pueden encontrar muchas imágenes similares. La imagen de un hombre escuchando una interpretación del amor, que palabra a palabra se funde por la pasión, cuando acaba la interpretación, se ha convertido en agua y desaparece en la tierra. La importancia del libro de Attar y de otros libros similares no reside solo en el hecho de recopilar estas historias, sino en la teoría de la unidad de existencia que destruye el monopolio de lo divino. Otros pensadores como Ahmad Ghazali (1061-1123 o 1126) y Ayn al-Quzat Hamadani (1098-1131) hasta presentan al diablo, el Iblis, dentro de entornos de lo divino. En realidad, los profetas, nunca fueron capaces de monopolizar lo divino. Attar y otros pensadores admiten en entorno de la literatura oficial lo que existía desde hacía siglos en el folclore y las creencias populares. Muchas de las imágenes asignadas a esta o aquella figura religiosa, son imágenes poéticas. La gota de sudor de la amada cae de su cara sobre la tierra y hace crecer una rosa. Pero una estrategia textual, como la personificación que se aplica sobre la Kaaba, aún cuando es una rebeldía contra el lugar, mueve los sistemas ontológicos de la religión.
5. Shams Tabrizi (1185–1248) narrando la historia de un derviche, crea una interpretación diferente de la eternidad del hombre. Dice: “Dijo el Sheij (el maestro) que el Califa prohibió la Sama (el baile). Apareció un nudo de traumas en el interior del derviche y se enfermó. Le traen un médico experto. El médico examina su pulso y no encuentra ninguna de las causas que había estudiado. Muere el derviche y el médico abre su tumba y su pecho, y saca el nudo. Parecía un rubí. En tiempos de necesidad lo vende y, de mano en mano, el rubí llega hasta las manos del Califa. El Califa hace una sortija de sello con el rubí y la mantiene en su dedo. Un día, cuando bailaba, ve su ropa manchada de sangre. No encuentra ninguna herida. Mira el anillo y ve el rubí fundido. Investiga a los mercaderes y llega hasta el médico, y éste le cuenta la historia.” Este cuento, aún cuando revela la hipocresía del Califa y otros gobernantes religiosos, habla de la eternidad del corazón. El corazón cambia de forma, pero no muere. La metáfora del corazón en este cuento refiere al lugar de la epifanía de lo divino. El vestido de Hallaj o sus cenizas son capaces de tranquilizar el enojo de Tigris después de su muerte. Si el corazón del derviche se convierte en piedra por la tristeza, pero en el baile retoma su forma original, me pregunto: ¿Incluso la palabra puede regresar a su forma original? En las creencias folclóricas de Irán, la poesía de algunos poetas puede contarnos el futuro. Por ejemplo, en muchas fiestas persas, la persona desea algo en su corazón y pide consejo de Hafiz (1325/26-1389/90), abriendo una pagina de su poesía al azar. Hay poemas que tienen la capacidad de curarnos. Por ejemplo, dicen que si se leen unos poemas de Abuljair (967-1049), respirando sobre la cara de un enfermo, o si se disuelve el poema en agua y el enfermo lo bebe, se curará. La capacidad de profecía o de curación de la poesía nos llegó desde los primeros poetas: Los Chamanes. Pero, si consideramos los hechos, este poeta, Abuljair, a quien se atribuyen más de 1,200 poemas, nunca escribió más que dos poemas en su vida. Similar a esta figura es Omar Jayyam, conocemos más de mil poemas suyos, pero él mismo no escribió más que veinte. Así que la creencia de curación de esos poemas no refiere a la persona histórica de Abuljair, él es un símbolo colectivo. En realidad, lo divino no tiene nombre. Nombrar lo divino ocurre como un proceso histórico.
En los próximos ensayos hablaré de las transformaciones de la “figura del poeta” desde la cultura oral hasta la cultura escrita y la cultura digital. Acá solo menciono que la historia, como conjunto de instituciones, se construye en la transformación de la cultura oral a la escrita. Varias figuras como Shams Tabrizi estuvieron contra la escritura. Este mismo pensador existe solo tres años en la historia, porque en estos tres años vivió cerca de la escritura de Rumi (1207-1273). En el pensamiento de Shams, la escritura mata la palabra y la palabra pierde su vida y fluencia, y se congela. Él incluso piensa que nadie puede citar sus palabras. Es decir, un texto que no contiene el cuerpo de Shams no está hecho de sus palabras.

6. Se dice que Rostam, el héroe de la épica nacional persa, mata a su hijo Sohrab. Las leyendas cuentan que Rostam le pide al Rey la cura. Pero la cura nunca llega a tiempo y Sohrab muere. El Shahnameh cuenta la muerte de Sohrab hasta este punto. Pero la gente no acepta el asesinato de Sohrab en manos de su propio padre, ni puede dejar que Rostam quede libre de este asesinato. La relación entre padre e hijo en la épica nacional persa no es como la leyenda de Edipo en la mitología griega. El folclore añade un capítulo nuevo a la historia. Dice que la voz de lo divino, Sorush, habló con Rostam y le dijo que, si levantaba el cadáver de Sohrab en sus brazos y lo mantenía así por cuarenta días, el muerto regresaría a la vida. Rostam lo intenta. En el día 39, una viejita lava la ropa junto al río en cuya orilla Rostam mantiene sobre sus manos, levantado, el cuerpo de su hijo. La viejita lava la ropa, una tela negra, por horas y horas. Rostam le pregunta: “¿Qué haces viejita?” Responde la mujer: “Quiero hacer blanco el negro de esta tela, como tú, que quieres devolver a la vida un muerto”. Si tú lo puedes hacer, yo también. Rostam pone sobre la tierra el cuerpo de Sohrab. Acá es donde, según el folclore, Sohrab muere para siempre. La voz de la imposibilidad, en este capitulo del folclore, es la voz de la “razón”. La religión, aunque fue la institución de la fe en su desarrollo histórico y tuvo una lucha incesante con la razón, ha actuado al lado de filosofía, compartiendo dos elementos: el poder y la voluntad. María Zambrano, con su gran lucidez, considera a la poesía indiferente a estos dos elementos. El poder y la voluntad son los mismos elementos que en la religión, intentan construir una poética del milagro y lo divino, a fin de mantener el monopolio de la religión sobre lo divino. Estos mismos elementos en la filosofía tratan de falsificar el monopolio del pensamiento. El misticismo resistió hasta cierto punto contra el monopolio de lo divino y expandió la poética de las religiones, pero, exactamente en el proceso de inventar la poética, se alejó de la poesía. Dice Vladimir Holan (1905 – 1980), el poeta checo, que “jenom poetické ničí poézii”, es decir, solo lo poético destruye la poesía.

7. Hace más de dos mil años, Zhuang Zhou (369 a.C-286 a.C) imagina un diálogo entre Confucio (551 a. C.-479 a. C.) y Lao Tze (muerto en 531 a.C). En este diálogo, Confucio está de acuerdo con la ley y la justicia, en cambio, Lao Tze piensa que no hay una idea más injusta que la justicia. Lao Tze no cree en la caridad y la justicia y propone el concepto de virtud en lugar de ellas. Más de dos mil años después, Ahmad Shamlu (1925–2000), el poeta persa, imagina un diálogo entre la idea de la Tierra y la idea del hombre, en el momento de la destrucción final. Este poema, tiene referencias a un capítulo del Corán que se llama “hierro”. En el Corán, Dios dice al hombre que le regaló  el hierro para construir espadas con las cuales puede ejecutar la justicia. Dice Shamlu: “Si hubiera amor, no habría necesidad de una injusticia llamada justicia”. Lo que Zhuang Zhou y Lao Tze llamaban Tao y Virtud, Shamlu lo llama amor. Yo considero la idea histórica del amor como una construcción hecha por la poesía. Prefiero utilizar la poesía incluso en lugar del amor y la virtud. Un mundo que tiene arquitectos como Platón y Confucio se construye sobre la dualidad del poder y el anti-poder. La misma dualidad que, en nuestra condición humana, fue responsable de la creación de la imposibilidad. Ko Un (nacido en 1933), el poeta coreano, escribe en una poema: “Algunos dicen que recuerdan mil años/ algunos dicen que han visitado los próximos./ En un día de vientos / Yo estoy esperando el autobús.” La poesía en esta interpretación del momento, sin poner atención a la historia ni a la profecía, sin buscar el poder ni la voluntad, se inventa a sí misma. Me pregunto: ¿De dónde viene este autobús y a dónde va? Una pregunta que en estos momentos de la espera me empuja a escribir otro capítulo: El nacimiento de la palabra.


Fotografías:
Montañas iranís de Amos Chapple, publicada en:
www.theguardian.com

Fotografía de mano de derviche tomada de:
www.sufiway.eu

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